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Violência doméstica e de gênero na Espanha em 2025: Veja os dados oficiais

A Espanha, destino de milhares de brasileiros anualmente, é reconhecida por sua vibrante cultura, qualidade de vida e um sistema jurídico robusto. Contudo, como em qualquer sociedade complexa, desafios sociais persistem, e um dos mais graves é a violência de gênero e doméstica. Para a comunidade brasileira residente ou com planos de imigrar, compreender o cenário, as proteções legais e seus direitos é fundamental. Este artigo, elaborado pelo Studio Cidadania, visa informar sobre a violência de gênero e doméstica na Espanha, com foco nos dados de 2025 e o que isso significa para você.
A violência de gênero, definida pela legislação espanhola como aquela exercida por homens contra mulheres no contexto de relações de afeto ou familiares, é uma chaga social que exige atenção constante. Já a violência doméstica abrange um espectro mais amplo, envolvendo conflitos no ambiente familiar que vitimizam qualquer de seus membros. A boa notícia é que a Espanha possui um dos marcos legais mais avançados para combater e proteger as vítimas, garantindo direitos e caminhos para a segurança, mesmo para imigrantes em situação irregular.
Nosso objetivo é fornecer uma análise detalhada dos dados oficiais divulgados pelo Instituto Nacional de Estadística (INE) em abril de 2026, referentes ao ano de 2025, transformando estatísticas em conhecimento prático. Abordaremos desde o panorama geral até as nuances regionais, perfil das vítimas, e, crucialmente, os recursos e direitos disponíveis para imigrantes brasileiros em situação de vulnerabilidade.
Panorama dos Dados Oficiais de 2025: Um Olhar Atento
Os números de 2025, apesar de apresentarem algumas tendências positivas, indicam que a luta contra a violência de gênero e doméstica ainda é uma prioridade. As informações a seguir são baseadas nos relatórios oficiais do INE para o período.
| Indicador | Casos (2025) | Variação Anual |
|---|---|---|
| Mulheres Vítimas de Violência de Gênero | 33.373 | -3,8% |
| Menores Vítimas de Violência de Gênero | 1.935 | +10,1% |
| Pessoas Vítimas de Violência Doméstica | 9.513 | +7,4% |
| Homens Denunciados por Violência de Gênero | 33.228 | -3,8% |
Um dado encorajador é a redução de 3,8% no número de mulheres vítimas de violência de gênero em comparação com 2024, totalizando 33.373 casos. A taxa de 1,5 vítimas por 1.000 mulheres acima de 14 anos fornece uma métrica crucial para entender a prevalência em relação à população feminina adulta. No entanto, o aumento de 10,1% no número de menores vítimas, totalizando 1.935 casos, é motivo de grande preocupação e exige medidas de proteção mais eficazes para os mais vulneráveis.
Evolução Histórica: Comparativo 2021-2025
Para compreender adequadamente os números de 2025, é essencial analisá-los dentro de uma perspectiva temporal mais ampla. O quinquênio 2021-2025 revela tendências importantes sobre a eficácia das políticas públicas de combate à violência de gênero na Espanha.
| Ano | Mulheres Vítimas de VG | Variação Anual |
|---|---|---|
| 2021 | 30.141 | — |
| 2022 | 32.644 | +8,3% |
| 2023 | 36.582 | +12,1% |
| 2024 | 34.684 | -5,2% |
| 2025 | 33.373 | -3,8% |
Os dados revelam um crescimento expressivo entre 2021 e 2023, com o pico de 36.582 vítimas registrado naquele ano. A partir de 2024, iniciou-se uma tendência de queda que se manteve em 2025. Embora a redução de dois anos consecutivos seja positiva, o número de 2025 ainda é superior ao registrado em 2021, indicando que o caminho de redução sustentada ainda está em curso. Esse padrão pode refletir tanto o aumento da conscientização e da disposição das vítimas em denunciar quanto a implementação de políticas de prevenção mais eficazes nos últimos anos.
Análise Regional: Disparidades entre Comunidades Autônomas
A distribuição geográfica da violência de gênero na Espanha é bastante heterogênea, variando significativamente entre as diferentes comunidades autônomas. Para brasileiros que estão escolhendo onde se estabelecer, essa informação pode ser relevante ao considerar o contexto social de cada região.
| Comunidade Autônoma | Taxa por 1.000 mulheres (14+ anos) |
|---|---|
| Melilla | 4,8 |
| Ceuta | 2,6 |
| La Rioja | 2,6 |
| Região de Murcia | 2,4 |
| Cantábria | 2,3 |
| Ilhas Baleares | 2,2 |
| Extremadura | 2,0 |
| Castilla-La Mancha | 2,0 |
| Canárias | 2,0 |
| Andaluzia | 2,0 |
| MÉDIA NACIONAL | 1,5 |
| Catalunha | 0,7 |
| País Basco | 0,7 |
| Comunidade de Madrid | 0,9 |
As cidades autônomas de Melilla (4,8) e Ceuta (2,6) apresentam as taxas mais elevadas, seguidas por comunidades como La Rioja, Murcia e Cantábria. No extremo oposto, Catalunha e País Basco registram as menores taxas (0,7), seguidas por Madrid (0,9). Doze comunidades e as duas cidades autônomas superaram ou igualaram a média nacional. É importante notar que taxas menores nem sempre significam menor violência — podem refletir diferenças no acesso a mecanismos de denúncia ou variações culturais na busca por ajuda.
Perfil das Vítimas e Relação com os Agressores
Compreender o perfil das vítimas e a natureza da relação com o agressor é fundamental para orientar políticas públicas e mecanismos de proteção eficazes.
Quase metade das mulheres vítimas de violência de gênero (47,5%) tinha entre 30 e 44 anos, faixa etária que coincide com o perfil de muitas mulheres brasileiras que emigram para a Espanha em busca de melhores oportunidades. Da mesma forma, 47,9% dos homens denunciados pertenciam à mesma faixa etária.
| Relação com o Agressor | Vítimas | Percentual |
|---|---|---|
| Parceira de fato ou ex-parceira | 12.138 | 36,4% |
| Namorada ou ex-namorada | 13.620 | 40,8% |
| Cônjuge | 5.590 | 16,7% |
| Ex-cônjuge | 1.708 | 5,1% |
| Em processo de separação | 317 | 1,0% |
O fato de que 40,8% das vítimas eram namoradas ou ex-namoradas revela que a violência de gênero não se limita ao ambiente conjugal ou de coabitação. As relações afetivas informais também apresentam risco significativo, o que reforça a importância de programas de prevenção direcionados a todas as faixas etárias e tipos de relacionamento.
Menores como Vítimas: Uma Preocupação Crescente
O aumento de 10,1% no número de menores vítimas de violência de gênero, totalizando 1.935 em 2025, é o dado mais alarmante do relatório. Essas crianças e adolescentes sofrem impactos profundos em seu desenvolvimento emocional, psicológico e social.
Dos 1.935 menores vítimas, 980 eram do sexo masculino e 955 do sexo feminino, demonstrando que a violência contra menores nesse contexto afeta ambos os gêneros de forma praticamente equitativa. A grande maioria (1.579 ou 81,6%) eram filhos diretos da vítima, evidenciando que a violência de gênero transcende a relação entre parceiros e afeta toda a estrutura familiar.
A proteção dos menores é prioridade absoluta no sistema jurídico espanhol, e os juizados podem determinar medidas específicas para sua salvaguarda, incluindo restrição de visitas do agressor, atribuição da guarda exclusiva à mãe e acompanhamento psicológico especializado.
Violência Doméstica: Dados e Tendências
A violência doméstica, que engloba agressões no âmbito familiar além da relação de casal, também apresentou crescimento em 2025. Foram 9.513 vítimas registradas, um aumento de 7,4% em relação ao ano anterior, sendo 60,9% mulheres e 39,1% homens.
contexto da violência doméstica, 36,4% das vítimas eram pai ou mãe do agressor, 24,3% eram filhos e 9,5% eram irmãos. Estes dados revelam a complexidade das dinâmicas familiares e a necessidade de abordagens multidisciplinares que considerem todos os membros do núcleo familiar.
O número de pessoas denunciadas em violência doméstica também cresceu, com 7.590 denunciados — um aumento de 5,1%. Homens representaram 71,7% dos denunciados (5.441), enquanto mulheres corresponderam a 28,3% (2.149). Um dado singular é que 376 pessoas figuraram simultaneamente como denunciadas e vítimas, refletindo situações de conflito familiar bidirecional.
Sentenças Firmes e Eficácia do Sistema Judicial
A capacidade do sistema judicial espanhol de responsabilizar os agressores é um indicador fundamental da eficácia das políticas de combate à violência. Em 2025, os dados demonstram uma resposta judicial robusta e cada vez mais ágil.
| Tipo de Violência | Condenados (2025) | Variação Anual |
|---|---|---|
| Violência de Gênero (homens) | 40.929 | +4,8% |
| Violência Doméstica (total) | 10.757 | +16,6% |
| Violência Doméstica (homens) | 6.952 | +14,5% |
| Violência Doméstica (mulheres) | 3.805 | +20,6% |
O aumento significativo no número de condenados — especialmente o crescimento de 16,6% nas condenações por violência doméstica — indica maior eficácia processual e disposição do sistema em responsabilizar os agressores. É particularmente relevante que o número de condenados supere o número de vítimas registradas no mesmo ano, pois as sentenças firmes podem referir-se a processos iniciados em anos anteriores.
Duração dos Processos Judiciais
| Duração do Processo | Violência de Gênero | Violência Doméstica |
|---|---|---|
| Menos de 1 ano | 29.589 (72,3%) | 6.749 (62,7%) |
| 1 a 2 anos | 5.406 (13,2%) | 1.837 (17,1%) |
| 2 a 3 anos | 2.866 (7,0%) | 1.028 (9,6%) |
| 3 anos ou mais | 3.068 (7,5%) | 1.143 (10,6%) |
A celeridade processual é notável: 72,3% das sentenças firmes em casos de violência de gênero foram proferidas em menos de um ano, demonstrando que o sistema judicial espanhol prioriza esses casos. Para a violência doméstica, o percentual é de 62,7%. Esta agilidade é fundamental para transmitir segurança às vítimas e desencorajar a reincidência.
Medidas Cautelares: O Escudo Protetor Imediato
As medidas cautelares representam a resposta imediata do sistema judicial para proteger as vítimas antes mesmo do julgamento definitivo. São instrumentos essenciais de segurança que podem ser solicitados pela vítima, pelo Ministério Público ou determinados de ofício pelo juiz.
Violência de Gênero
Em 2025, foram ditadas 98.551 medidas cautelares em assuntos de violência de gênero, uma redução de 4,4% em relação ao ano anterior. Dessas, 73,3% foram de caráter penal (como afastamento do agressor, proibição de comunicação e retirada de armas) e 26,7% de caráter civil (como atribuição do uso da moradia, regime de guarda dos filhos e prestação de alimentos).
Violência Doméstica
Na esfera da violência doméstica, foram ditadas 18.620 medidas cautelares, um aumento de 3,8% em comparação com 2024. A grande maioria (91,0%) foi de natureza penal e 9,0% civil. Do total, 72,5% recaíram sobre homens e 27,5% sobre mulheres denunciadas.
Para imigrantes brasileiros, é importante saber que as medidas cautelares podem ser solicitadas independentemente da situação documental da vítima. A proteção imediata é um direito universal reconhecido pela legislação espanhola.
O Sistema de Proteção Espanhol: Ordens de Proteção
A Espanha conta com um sistema abrangente de proteção às vítimas de violência, ancorado na Ley Orgánica 1/2004, de Medidas de Protección Integral contra la Violencia de Género. Este marco legal estabelece juizados especializados, protocolos de atuação integrada e uma rede de recursos para vítimas.
A Orden de Protección é o instrumento jurídico mais completo, pois pode incluir simultaneamente medidas penais e civis, proporcionando à vítima uma proteção integral. A solicitação pode ser feita diretamente no juizado, na delegacia, no Ministério Público ou até mesmo nos serviços sociais.
Direitos dos Imigrantes Brasileiros em Situação de Violência na Espanha
Este é talvez o capítulo mais importante deste artigo para a comunidade brasileira. A legislação espanhola garante uma série de direitos às vítimas de violência de gênero, independentemente de sua situação documental. Isso significa que mesmo uma brasileira em situação irregular pode e deve buscar ajuda.
Permiso de Residencia por Circunstancias Excepcionales
A Ley Orgánica 4/2000 prevê a concessão de autorização de residência e trabalho por circunstâncias excepcionais para mulheres estrangeiras vítimas de violência de gênero, desde que haja uma ordem de proteção favorável ou relatório do Ministério Público. Este é um direito fundamental que permite à vítima regularizar sua situação migratória e reconstruir sua vida com segurança jurídica.
Assistência Jurídica Gratuita
Toda vítima de violência de gênero tem direito a assistência jurídica gratuita e imediata, sem necessidade de comprovar insuficiência de recursos econômicos. Um advogado especializado será designado desde o momento em que a vítima decide denunciar, acompanhando-a em todos os procedimentos judiciais e administrativos.
Recursos de Apoio Disponíveis
- Telefone 016: Serviço de atendimento a vítimas de violência de gênero, disponível 24 horas, 7 dias por semana, com atendimento em diversos idiomas, incluindo português. A ligação não aparece na fatura telefônica.
- Serviços Sociais Municipais: Oferecem acolhimento, orientação e acompanhamento psicológico.
- Casas de Acolhimento: Residências temporárias seguras para vítimas e seus filhos.
- ATENPRO: Serviço de proteção telefônica com dispositivo móvel para vítimas com ordem de proteção.
Como Denunciar: Canais e Procedimentos
Para brasileiros na Espanha, é fundamental conhecer os canais de denúncia disponíveis:
- Policía Nacional ou Guardia Civil: Presencialmente em qualquer delegacia. É possível solicitar intérprete.
- Juzgado de Violencia sobre la Mujer: Diretamente no juizado especializado.
- Telefone 016: Para orientação e encaminhamento, disponível em português.
- Telefone 112: Em caso de emergência imediata.
- Serviços Sociais: Orientação e acompanhamento antes e depois da denúncia.
A denúncia pode ser realizada com ou sem documentação migratória válida. Nenhuma autoridade policial pode negar o atendimento ou iniciar procedimentos de expulsão contra uma vítima de violência de gênero que busque proteção.
O Papel da Assessoria Especializada
Navegar pelo sistema jurídico de um país estrangeiro em um momento de vulnerabilidade pode ser extremamente desafiador. Contar com assessoria especializada em direito migratório e proteção de vítimas pode fazer a diferença entre a efetiva obtenção dos direitos garantidos pela lei e a desinformação que perpetua ciclos de violência.
Uma assessoria qualificada auxilia na compreensão dos procedimentos legais, na preparação da documentação necessária, no acompanhamento junto aos tribunais e serviços sociais, e na orientação sobre as opções de regularização migratória disponíveis para vítimas.
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Dra. Débora Friedrich Izquierdo
Advogada, Sócia-fundadora do Studio Cidadania
Inscrita na Ordem dos Advogados de Portugal e na OAB. Mais de 10 anos dedicados a processos de cidadania portuguesa, italiana e espanhola, com atuação direta em Lisboa e mais de 500 famílias representadas.
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