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INE 2025: Habitação em Portugal e eficiência energética
O Instituto Nacional de Estatística (INE) publicou em março de 2026 os resultados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (ICOR) 2025, com um módulo especial dedicado a habitação, energia e ambiente. Os dados revelam um retrato detalhado das condições em que vivem as famílias portuguesas — informação fundamental para quem planeia emigrar ou já reside no país.
Fonte: INE — Rendimento e Condições de Vida: Habitação, Energia e Ambiente 2025
1. Idade dos Alojamentos e Risco de Pobreza — Um Mapa da Desigualdade
Um dos dados mais reveladores do inquérito é a correlação entre a antiguidade dos alojamentos e a concentração de famílias em risco de pobreza. Segundo os números oficiais, 30,1% dos alojamentos construídos antes de 1945 são ocupados por agregados familiares em situação de vulnerabilidade económica. Esta percentagem diminui progressivamente para imóveis mais recentes, atingindo apenas 11,4% nos alojamentos construídos após 2015.
| Período de Construção | Sem Risco de Pobreza | Em Risco de Pobreza |
|---|---|---|
| Antes de 1945 | 69,9% | 30,1% |
| 1945–1960 | 77,5% | 22,5% |
| 1961–1980 | 79,6% | 20,4% |
| 1981–2000 | 85,0% | 15,0% |
| 2001–2010 | 90,8% | 9,2% |
| 2011–2015 | 85,0% | 15,0% |
| Após 2015 | 88,6% | 11,4% |
Os dados dos Censos 2021 complementam este panorama: cerca de 14% dos alojamentos familiares de residência habitual foram construídos antes de 1960, 65% entre 1961 e 2000 e os restantes 21% entre 2001 e 2021. Isto significa que a maioria do parque habitacional português tem entre 25 e 65 anos de idade, o que ajuda a compreender os desafios em matéria de eficiência energética.
2. Eficiência Energética — Mais de Metade dos Edifícios Antigos Sem Renovação
O módulo especial do inquérito de 2025 revela uma realidade preocupante: 54,7% dos agregados familiares que residem em alojamentos construídos antes de 1960 afirmaram que nenhuma renovação para melhoria da eficiência energética foi realizada, apesar de ser necessária. Nos imóveis mais antigos (antes de 1945), esta percentagem mantém-se igualmente elevada.
Em contrapartida, nos alojamentos construídos após 2015, 21,6% beneficiaram de pelo menos duas medidas de renovação — como isolamento térmico, atualização de sistemas elétricos ou substituição de equipamentos de aquecimento e arrefecimento.
| Período de Construção | Não é necessário | Necessário mas não feito | 1 medida realizada | 2+ medidas realizadas |
|---|---|---|---|---|
| Antes de 1945 | 20,2% | 54,7% | 12,6% | 12,5% |
| 1945–1960 | 20,9% | 52,3% | 12,6% | 14,3% |
| 1961–1980 | 23,9% | 45,0% | 16,3% | 14,8% |
| 1981–2000 | 27,9% | 36,1% | 18,7% | 17,2% |
| 2001–2010 | 40,8% | 24,6% | 18,4% | 16,2% |
| 2011–2015 | 53,3% | 23,2% | 12,2% | 11,3% |
| Após 2015 | 45,1% | 19,2% | 14,1% | 21,6% |
O custo financeiro como principal barreira
Quando questionadas sobre os motivos para não realizarem as renovações necessárias, as famílias apontaram esmagadoramente o custo financeiro. Para os agregados em risco de pobreza, 90,1% indicaram que a renovação é demasiado cara. Mesmo entre as famílias acima do limiar de pobreza (fixado em 8.679 euros anuais por adulto equivalente), 77,9% citaram o custo como obstáculo principal.
| Motivo para Não Renovar | Em Risco de Pobreza | Sem Risco de Pobreza |
|---|---|---|
| Demasiado caro | 90,1% | 77,9% |
| Não tem interesse | 7,4% | 5,0% |
| Dificuldade em encontrar profissionais | 1,6% | 3,1% |
| Obstáculos administrativos | 1,1% | 3,5% |
| Outros obstáculos | 2,2% | 8,1% |
Estes números são particularmente relevantes para imigrantes que procuram habitação em Portugal: os imóveis mais acessíveis tendem a ser os mais antigos, frequentemente sem qualquer renovação energética, o que se traduz em contas de eletricidade e gás mais elevadas e menor conforto térmico, especialmente durante os meses de inverno.
3. Danos Ambientais e Meteorológicos na Habitação
O inquérito revelou que 7,5% da população em risco de pobreza foi afetada por danos causados à habitação por causas ambientais ou meteorológicas, comparando com 6,9% para a população acima do limiar de pobreza. Os danos foram mais frequentes nas áreas urbanas:
| Indicador | Percentagem Afetada |
|---|---|
| Área predominantemente urbana | 7,7% |
| Área mediamente urbana | 6,6% |
| Área predominantemente rural | 6,0% |
| Em risco de pobreza | 7,5% |
| Sem risco de pobreza | 6,9% |
Os eventos climáticos extremos — como as tempestades de inverno e as ondas de calor cada vez mais frequentes na Península Ibérica — tornam a questão da resiliência habitacional cada vez mais urgente, tanto para proprietários como para inquilinos.
4. Espaços Verdes e Qualidade de Vida Urbana
Os dados mostram que as famílias com crianças valorizam mais a proximidade a espaços verdes públicos. Em 2025, 47,0% das famílias com crianças residiam a menos de 400 metros de um espaço verde público, contra 44,9% das famílias sem crianças. Para famílias com dois adultos e três ou mais crianças, mais de metade (51,8%) vivia próxima de áreas verdes.
A satisfação com os espaços verdes está diretamente ligada à proximidade: cerca de 60% dos indivíduos muito satisfeitos viviam a menos de 400 metrosum espaço verde, enquanto 55,5% dos muito insatisfeitos residiam a mais de 2 quilómetros.
Dois terços da população (cerca de 66%) declararam-se satisfeitos ou muito satisfeitos com os espaços públicos verdes na sua zona de residência, e apenas 10% manifestaram forte insatisfação.
O que isto significa para quem procura morar em Portugal
Para famílias com crianças que planeiam mudar-se para Portugal, estes dados sugerem que as cidades portuguesas oferecem, em geral, boa acessibilidade a espaços verdes, embora com variações significativas entre bairros. Cidades como Lisboa, Porto e Braga têm investido fortemente na requalificação de parques e jardins urbanos, algo que se reflete nos indicadores de satisfação.
5. Sobrelotação, Privação Habitacional e Sobrecarga de Despesas
Os indicadores habitacionais do ICOR 2025 revelam desigualdades significativas entre famílias com e sem crianças, e entre populações acima e abaixo do limiar de pobreza.
| Indicador | Com Crianças | Sem Crianças | Em Risco de Pobreza | Sem Risco de Pobreza |
|---|---|---|---|---|
| Taxa de sobrelotação | 20,8% | 5,7% | 11,1% | — |
| Privação habitacional severa | 10,2% | 2,5% | 5,0% | — |
| Carga mediana das despesas | 13,8% | 9,9% | — | 10,1% |
| Taxa de sobrecarga das despesas | 7,5% | 5,2% | 24,4% | 2,9% |
O dado mais impactante: a taxa de sobrecarga das despesas em habitação para a população em risco de pobreza é de 24,4% — mais de oito vezes superior à taxa da restante população (2,9%). Isto significa que quase um quarto das famílias vulneráveis gasta mais de 40% do seu rendimento disponível em habitação.
Apesar das dificuldades objetivas, 90,1% dos agregados familiares em risco de pobreza declararam-se satisfeitos ou muito satisfeitos com o seu alojamento — um dado que revela tanto resiliência como uma possível adaptação às condições existentes.
6. Reciclagem e Comportamentos Ambientais
O módulo ambiental do inquérito traz dados relevantes sobre os hábitos de sustentabilidade dos portugueses:
- 72,7% das famílias separam sempre ou quase sempre embalagens de plástico do lixo doméstico geral
- Este comportamento é mais comum entre pessoas com ensino superior: 86,2% separam sempre, contra 67,2% entre quem tem apenas o ensino básico
- Apenas 6,7% das famílias com indivíduos de referência com ensino superior raramente ou nunca fazem separação
| Escolaridade do Indivíduo de Referência | Sempre ou Quase Sempre | Às Vezes | Raramente ou Nunca |
|---|---|---|---|
| Total | 72,7% | 12,2% | 15,1% |
| Até ensino básico | 67,2% | 14,6% | 18,2% |
| Ensino secundário | 73,0% | 11,1% | 15,9% |
| Ensino superior | 86,2% | 7,1% | 6,7% |
7. Transportes — O Automóvel Ainda Domina
O automóvel continua a ser o principal meio de transporte em Portugal, embora com diferenças marcadas por condição económica:
| Meio de Transporte | Sem Risco de Pobreza | Em Risco de Pobreza |
|---|---|---|
| Automóvel | 72,1% | 54,5% |
| Transporte público | 15,7% | 22,2% |
| A pé | 9,2% | 18,4% |
| Ciclomotor/motociclo | 0,9% | 1,6% |
| Incapacidade de sair | 0,8% | 1,6% |
A transição para veículos elétricos ainda é incipiente: 56,4% dos automóveis familiares funcionam a gasóleo, 35,3% a gasolina, 4,0% são híbridos e apenas 3,4% são elétricos. A motorização elétrica permanece, assim, um privilégio de uma pequena fração da população.
| Tipo de Energia | Proporção |
|---|---|
| Gasóleo | 56,4% |
| Gasolina | 35,3% |
| Híbrido | 4,0% |
| Elétrico | 3,4% |
| Outro | 0,9% |
8. Viagens de Avião e Mobilidade Internacional
Um quarto da população portuguesa (25,6%) realizou pelo menos uma viagem de avião na Europa nos 12 meses anteriores ao inquérito, para fins pessoais ou profissionais. Nas viagens para fora da Europa, a proporção cai para 9,3%.
| Viagens de Avião | Total | Sem Risco de Pobreza | Em Risco de Pobreza |
|---|---|---|---|
| Pelo menos 1 voo na Europa | 25,6% | 28,2% | 11,2% |
| 1 voo | 12,9% | 14,0% | 6,7% |
| 2–3 voos | 8,8% | 9,8% | 3,4% |
| 4 ou mais voos | 3,9% | 4,4% | 1,1% |
| Nenhum voo na Europa | 74,4% | 71,8% | 88,8% |
Para imigrantes brasileiros em Portugal, estes dados contextualizam a mobilidade europeia: a posição geográfica de Portugal e a oferta de voos low-cost facilitam viagens frequentes dentro da Europa, algo particularmente atrativo para quem obtém residência ou cidadania europeia.
9. Economia Circular — O Destino dos Telemóveis
A economia circular ainda enfrenta desafios em Portugal. Quando o telemóvel se danifica:
- 64,5% mantêm o aparelho no agregado familiar sem utilização
- 18,0% encaminham para reciclagem ou entrega ao retalhista
- 7,6% eliminam sem recorrer à reciclagem eletrónica
- 5,7% eliminam por outros meios
O comportamento de reciclagem é mais comum na faixa etária dos 50 aos 64 anos (19,2%), enquanto os jovens entre 25 e 34 anos são os que mais eliminam sem reciclagem (12,4%).
10. O Que Estes Dados Significam para Quem Planeia Morar em Portugal
O conjunto de dados do ICOR 2025 oferece um retrato abrangente e fundamentado das condições de vida em Portugal, com implicações diretas para quem planeia emigrar:
- Habitação acessível, mas com ressalvas: os imóveis mais baratos tendem a ser os mais antigos e com menor eficiência energética, o que pode resultar em custos operacionais mais elevados
- Eficiência energética em evolução: o parque habitacional mais recente já incorpora melhores padrões, mas a maioria dos imóveis disponíveis para arrendamento ainda carece de renovação
- Qualidade de vida urbana: Portugal oferece boa acessibilidade a espaços verdes, especialmente nas grandes cidades, com investimento crescente em infraestrutura verde
- Transportes: a dependência do automóvel é elevada, mas os transportes públicos cobrem bem as zonas metropolitanas de Lisboa e Porto
- Sustentabilidade: a população portuguesa demonstra consciência ambiental crescente, embora a transição para veículos elétricos ainda seja incipiente
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Nota Metodológica
O Inquérito às Condições de Vida e Rendimento das Famílias (ICOR; EU-SILC) é realizado em Portugal desde 2004, no quadro de legislação comunitária harmonizada. A partir de 2021, segue o Regulamento (UE) 2019/1700 do Parlamento Europeu. Em 2025, foi implementado o módulo ad-hoc Energia e Ambiente, com recolha de dados entre abril e julho, através de entrevistas presenciais (CAPI) e telefónicas (CATI).
O limiar de pobreza utilizado corresponde a 60% da mediana do rendimento por adulto equivalente, conforme convenção da Comissão Europeia. A taxa de sobrecarga das despesas em habitação refere-se à proporção de agregados em que as despesas habitacionais (incluindo rendas, juros de crédito, água, eletricidade, gás e manutenção) ultrapassam 40% do rendimento disponível.
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Consulta Gratuita por WhatsAppSobre a autora

Dra. Débora Friedrich Izquierdo
Advogada, Sócia-fundadora do Studio Cidadania
Inscrita na Ordem dos Advogados de Portugal e na OAB. Mais de 10 anos dedicados a processos de cidadania portuguesa, italiana e espanhola, com atuação direta em Lisboa e mais de 500 famílias representadas.
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