Imigração na Itália 2025: dados e desafios da inclusão

A Itália vive uma das fases mais complexas e determinantes de sua história migratória recente. O 31º Rapporto sulle Migrazioni 2025, publicado pela Fondazione ISMU ETS — um dos mais respeitados centros de pesquisa sobre migrações da Europa — traça um retrato detalhado e atualizado dos fluxos migratórios, da integração dos imigrantes e dos desafios institucionais que o país enfrenta. O relatório, coordenado por Ennio Codini e Livia Elisa Ortensi, reúne contribuições de mais de 20 pesquisadores e analisa dados oficiais do ISTAT, Eurostat, INPS e do Ministério do Interior italiano.
Para quem planeja emigrar para a Itália, buscar cidadania italiana ou simplesmente compreender o contexto migratório europeu, este estudo é uma referência indispensável. Neste artigo, analisamos os principais dados e conclusões do relatório, com foco nas implicações práticas para brasileiros e descendentes de italianos.
📄 Acesse o estudo completo: 31º Rapporto sulle Migrazioni 2025 (PDF)
1. Quase 6 Milhões de Estrangeiros na Itália — O Recorde Histórico
Em 1º de janeiro de 2025, a Itália registrou 5.898.000 estrangeiros presentes em seu território, o maior número absoluto já registrado na série histórica do fenômeno migratório italiano. Desse total, 5.371.000 são residentes regulares, representando 9,1% da população total — um crescimento consistente em relação aos 8,9% do ano anterior.
Segundo as estimativas da Fondazione ISMU baseadas em dados do ISTAT, a composição dessa presença se distribui da seguinte forma:
| Tipologia | 1.1.2022 | 1.1.2023 | 1.1.2024 | 1.1.2025 |
|---|---|---|---|---|
| Residentes | 5.031.000 | 5.141.000 | 5.254.000 | 5.371.000 |
| % sobre total de residentes | 8,5% | 8,7% | 8,9% | 9,1% |
| Regulares não residentes | 293.000 | 176.000 | 180.000 | 188.000 |
| Irregulares | 506.000 | 458.000 | 321.000 | 339.000 |
| Total de presentes | 5.830.000 | 5.775.000 | 5.755.000 | 5.898.000 |
Fonte: Elaborações e estimativas ISMU ETS sobre dados ISTAT
É importante notar que a componente irregular permanece relativamente estável, em torno de 339 mil pessoas, o que indica que o crescimento da presença estrangeira se deve sobretudo à regularização e ao estabelecimento de longa duração dos imigrantes no país.
2. A Imigração como Amortecedor Demográfico
Uma das conclusões mais impactantes do relatório é o papel crucial da imigração como ammortizzatore demografico (amortecedor demográfico) para a Itália, um país que enfrenta uma das mais graves crises de natalidade da Europa.
Entre 2012 e 2024, a população com cidadania italiana perdeu 2,274 milhões de residentes, enquanto os estrangeiros aumentaram em 1,103 milhão, reduzindo pela metade a queda total da população. Sem a imigração, o declínio demográfico italiano seria o dobro do registrado.
Olhando para o futuro, as projeções do ISTAT para o período 2025–2055 são ainda mais reveladoras:
- Com o saldo migratório previsto: perda de quase 6 milhões de residentes
- Sem migração nenhuma: a perda ultrapassaria 12 milhões de pessoas
- Na faixa de população em idade ativa (20–66 anos), a perda sem migrações superaria 12 milhões de potenciais trabalhadores
Esses dados demonstram inequivocamente que a sustentabilidade econômica e previdenciária da Itália depende fundamentalmente da contribuição dos imigrantes e de seus descendentes.
3. As Principais Nacionalidades — Quem São os Estrangeiros na Itália?
O relatório revela que dois terços dos estrangeiros residentes na Itália estão concentrados em apenas dez nacionalidades. A comunidade romena lidera com folga:
| Nacionalidade | Residentes | % do Total | % Mulheres |
|---|---|---|---|
| Romênia | 1.053.042 | 19,6% | 56,3% |
| Albânia | 414.622 | 7,7% | 48,6% |
| Marrocos | 412.457 | 7,7% | 45,2% |
| China | 311.250 | 5,8% | 49,6% |
| Ucrânia | 287.187 | 5,3% | 74,9% |
| Bangladesh | 213.622 | 4,0% | 25,9% |
| Egito | 174.141 | 3,2% | 31,6% |
| Índia | 171.429 | 3,2% | 43,4% |
| Paquistão | 171.179 | 3,2% | 25,6% |
| Filipinas | 153.455 | 2,9% | 56,9% |
Fonte: Elaborações ISMU ETS sobre dados ISTAT, 1º de janeiro de 2025
Os dados revelam padrões migratórios bem definidos: a imigração do Leste Europeu, da América Latina e do Sudeste Asiático é fortemente feminizada, impulsionada pela demanda de trabalho doméstico e de cuidados. Já a imigração do Sul da Ásia e de partes da África Subsaariana é predominantemente masculina, com inserção nos setores industrial, de construção e agrícola.
4. Aquisições de Cidadania — O Boom da Naturalização
Um dos dados mais relevantes para os brasileiros é o crescimento expressivo das aquisições de cidadania italiana. Em 2024, foram 217.448 novas naturalizações, mantendo os patamares elevados observados desde 2022, quando as concessões ultrapassaram novamente as 200 mil unidades anuais.
total do decênio 2015–2024, a Itália concedeu 1.663.746 cidadanias, consolidando um processo de integração jurídica sem precedentes. As fontes oficiais estimam em 2,09 milhões os residentes que se tornaram cidadãos italianos.
4.1. Cidadania para Brasileiros e Argentinos
O relatório destaca especificamente o caso do Brasil e da Argentina como países que experimentaram um crescimento notável nas aquisições por ius sanguinis (direito de sangue). Para o Brasil, a trajetória é ascendente ao longo de toda a década, com 84.954 cidadanias concedidas entre 2015 e 2024.
Já a comunidade argentina registrou um crescimento extraordinário a partir de 2022, com mais de 43 mil aquisições somente no triênio mais recente (2022–2024). Segundo o relatório, analogamente ao Brasil, estamos diante de um país que foi destino da emigração italiana e do qual provêm numerosos descendentes interessados em obter a cidadania italiana.
4.2. As Modalidades de Aquisição
As vias de acesso à cidadania italiana se dividem em cinco modalidades principais:
- Por residência — principal canal, com oscilações ao longo da década mas retomada forte a partir de 2022
- Transmissão a menores — segunda modalidade mais relevante, diretamente ligada ao crescimento das naturalizações
- Por matrimônio — relativamente estável ao longo do tempo
- Por eleição — utilizada por jovens nascidos na Itália ao completar 18 anos
- Por ius sanguinis (descendência) — em forte crescimento desde 2022, impulsionada sobretudo por brasileiros e argentinos
5. O Mercado de Trabalho — Inclusão ou Segregação?
O capítulo sobre trabalho, elaborado pela pesquisadora Laura Zanfrini, é particularmente revelador. Embora os estrangeiros apresentem taxas de atividade mais elevadas que os italianos, essa aparente vantagem esconde uma realidade de segregação profissional estrutural.
Um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIL, 2025) citado no relatório afirma que 80% dos imigrantes na Itália estão concentrados no segmento secundário do mercado de trabalho, caracterizado por:
- Baixas qualificações e funções elementares
- Baixas remunerações
- Baixa mobilidade profissional
5.1. Os Números da Desigualdade Salarial
Os dados do INPS (2024) revelam disparidades significativas:
| Indicador | Trabalhadores não comunitários | Todos os trabalhadores | Diferença |
|---|---|---|---|
| Remuneração média anual | €17.015 | €24.449 | -30,4% |
| Contrato indeterminado | €20.939 | €29.567 | -29,2% |
| Contrato determinado | €10.060 | €10.626 | -5,3% |
O salário horário dos imigrantes é 26,3% inferior ao dos nacionais italianos, um diferencial que aumentou ao longo do tempo (era de 21,6% em 2006) e se amplia ainda mais para as trabalhadoras imigrantes.
5.2. Pobreza entre Famílias Imigrantes
As consequências dessa segregação são dramáticas: 35,2% das famílias compostas exclusivamente por estrangeiros vivem em pobreza absoluta, contra apenas 6,2% das famílias de cidadãos italianos. Esse valor aumentou dez pontos percentuais em uma década (era 25,2% em 2014).
Ainda mais preocupante: 40,5% das famílias de estrangeiros com menores vivem em pobreza absoluta, e 17,9% enfrentam insegurança alimentar.
6. A Escola — Espelho da Integração Intercultural
O sistema escolar italiano acolhe cerca de 930 mil alunos com cidadania não italiana (CNI)ano letivo 2023/24, provenientes de aproximadamente 200 países diferentes. Esse número vem crescendo de forma constante, embora a um ritmo mais lento do que na década anterior.
Dados relevantes sobre os alunos com background migratório:
- 59,5% nasceram na Itália
- 11,7% nasceram no exterior mas chegaram antes dos 6 anos
- 17% imigraram entre os 6 e os 10 anos
- 11,8% chegaram com 11 anos ou mais
- A Lombardia sozinha acolhe 26% de todos os alunos com CNI (235.826 estudantes)
Embora o sistema educativo italiano seja reconhecido como espaço privilegiado de encontro intercultural, o relatório aponta que persistem desigualdades significativas nos resultados escolares, nas transições entre níveis de ensino e nas aspirações formativas dos jovens com background migratório. Esses desníveis tendem a reproduzir no tempo as desvantagens sociais já existentes.
7. Saúde, Religião e Inclusão Financeira — Os Desafios da Convivência
7.1. Acesso à Saúde
O relatório identifica obstáculos persistentes no acesso dos imigrantes aos serviços do sistema de saúde italiano, um tema que afeta diretamente a qualidade de vida e a integração das comunidades estrangeiras.
7.2. Pluralismo Religioso
Um dado interessante é que o relatório desmonta o que chama de espectro de uma invasão por um Islã monolítico: a realidade religiosa dos imigrantes na Itália é articulada e diversificada, muito distante das simplificações frequentemente exploradas no debate público.
7.3. Inclusão Financeira
O capítulo sobre exclusão financeira revela como muitos imigrantes ainda enfrentam barreiras para acessar plenamente os serviços bancários e financeiros, o que compromete a capacidade de planejar gastos e investimentos a longo prazo, como a compra de imóveis.
8. O Cenário Europeu — Restrição vs. Integração
O relatório analisa extensamente a posição da Itália no cenário migratório europeu, apontando tendências preocupantes:
- Aumento constante dos indeferimentospedidos de asilo pelas comissões territoriais desde 2021, aproximando-se de 70% de taxa de rejeição
- Tentativas de externalização da gestão migratória para países terceiros (como o acordo Itália-Albânia), que colocam em risco princípios fundamentais do direito internacional
- Crescimento do euroceticismo e de orientações restritivas no Parlamento Europeu após as últimas eleições
- A criminalização da solidariedade, com práticas de socorro e defesa dos direitos humanos sendo progressivamente enquadradas em lógicas punitivas
Ao mesmo tempo, o relatório destaca um dado esperançoso: na opinião pública, parece crescer — tornando-se majoritária — a ideia de que a imigração deve ser considerada mais como um recurso do que como uma ameaça.
9. Desembarques e Pedidos de Asilo — Os Fluxos de 2025
Em relação aos desembarques e entradas irregulares, o relatório constata que os números de 2025 permaneceram substancialmente alinhados aos de 2024, longe dos picos registrados em 2023 e no período 2014–2017.
Principais dados sobre os pedidos de asilo:
- Em 2024, foram apresentadas cerca de 151 mil demandas de asilo (80,5% por homens)
- Nos primeiros 8 meses de 2025, foram 81 mil pedidos, com queda de 22,6% em relação ao mesmo período de 2024
- As práticas pendentes atingem 216 mil em setembro de 2025
- As principais nacionalidades dos requerentes masculinos são: Bangladesh, Paquistão, Egito, Marrocos e Peru
- Entre as mulheres, predominam as originárias da América Latina (Peru, Colômbia, Venezuela) e da Geórgia
Um dado preocupante é que os países com maiores taxas de indeferimento (acima de 80%) — Bangladesh, Egito e Tunísia — são justamente os que mais contribuem para os pedidos de asilo, o que pode gerar aumento da irregularidade jurídica.
10. A Família Imigrante na Itália — Entre Precariedade e Enraizamento
O último censo consolidado (2023) registra 2,743 milhões de famílias com pelo menos um componente estrangeiro na Itália, das quais 1,944 milhão são compostas exclusivamente por estrangeiros. Essas famílias representam mais de 10% do total de famílias residentes no país.
A estrutura familiar revela uma coexistência de projetos migratórios diferentes:
- 56,4% são famílias unipessoais (pessoas sozinhas) — sugerindo projetos migratórios temporários ou ainda em fase inicial
- 18,4% têm 4 ou mais componentes — indicando núcleos com filhos e maior enraizamento
- As famílias unipessoais predominam no Mezzogiorno (sul), onde a integração é mais complexa
- As famílias maiores concentram-se entre Lombardia, Emília-Romanha e Vêneto
11. O Que o Relatório ISMU Significa para Brasileiros
Para os brasileiros que planejam emigrar para a Itália ou buscar a cidadania italiana por descendência, o 31º Relatório ISMU oferece algumas lições fundamentais:
- A Itália precisa de imigrantes — o colapso demográfico torna a imigração uma necessidade estrutural, não uma concessão
- A cidadania por ius sanguinis está em alta — o Brasil é um dos principais países de origem dos novos cidadãos italianos
- A integração laboral é desafiadora — sem qualificação reconhecida e competência linguística, há risco de ficar preso em empregos precários
- Investir em educação e língua italiana antes de emigrar é fundamental para evitar a segregação profissional
- O planejamento jurídico é essencial — tanto para a obtenção de cidadania quanto para vistos de trabalho e residência
12. A Importância de uma Assessoria Especializada
Diante da complexidade do cenário migratório italiano revelada pelo relatório ISMU, contar com uma assessoria especializada em cidadania e imigração pode fazer toda a diferença entre um processo bem-sucedido e anos de burocracia frustrante.
O Studio Cidadania oferece:
- Análise de elegibilidade personalizada para cidadania italiana por descendência
- Pesquisa genealógica em arquivos italianos e brasileiros
- Acompanhamento completo do processo — da certidão ao passaporte
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- Orientação sobre integração — emprego, moradia e sistema de saúde italiano
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Conclusão
O 31º Rapporto sulle Migrazioni da Fondazione ISMU ETS confirma que a Itália é, ao mesmo tempo, um país que precisa da imigração para sua sobrevivência demográfica e econômica, mas que ainda enfrenta desafios imensos na integração efetiva dos imigrantes. A segregação profissional, as disparidades salariais, a pobreza entre famílias estrangeiras e as barreiras no acesso à saúde e aos serviços financeiros são realidades que exigem políticas públicas mais robustas e uma abordagem mais humana.
Para os brasileiros, o cenário é de oportunidade com cautela: as portas estão abertas, a cidadania por descendência segue em alta e a Itália reconhece a importância dos imigrantes. Mas uma integração bem-sucedida exige preparação, planejamento e, idealmente, o apoio de profissionais que conheçam profundamente tanto a legislação quanto a realidade cotidiana da imigração italiana.
Referência principal: Codini, E.; Ortensi, L. E. (orgs.). 31º Rapporto sulle migrazioni 2025. Milano: Fondazione ISMU ETS, 2026. ISBN 978-88-314-4342-5. 📄 Download do relatório completo (PDF)
Fontes de dados citadas: ISTAT (2025), Eurostat (2025), INPS (2024), Ministero dell Interno (2025), OIL — Organizzazione Internazionale del Lavoro (2025), CNEL (2025), Banca d Italia (Balbo et al., 2025), OECD International Migration Outlook (2025).
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Dra. Débora Friedrich Izquierdo
Advogada, Sócia-fundadora do Studio Cidadania
Inscrita na Ordem dos Advogados de Portugal e na OAB. Mais de 10 anos dedicados a processos de cidadania portuguesa, italiana e espanhola, com atuação direta em Lisboa e mais de 500 famílias representadas.
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